top of page

Florianópolis: das primeiras ocupações ao povoamento que formou a Ilha 2

há 26 minutos
5 min de leitura

Muito antes de se chamar Florianópolis, a Ilha de Santa Catarina já era território de povos indígenas, porto natural de navegadores e ponto estratégico no Atlântico Sul. Sua formação atravessa séculos — e ganhou um capítulo decisivo com a chegada dos açorianos no século XVIII.




A história de Florianópolis não começa com a fundação de uma vila.

Muito antes da chegada dos colonizadores europeus, a Ilha de Santa Catarina já era habitada por populações indígenas. Sambaquis e outros sítios arqueológicos preservam vestígios de ocupações humanas milenares, enquanto povos de matriz tupi-guarani, entre eles os carijós, estavam presentes na região quando os europeus começaram a frequentar o litoral. Fontes vinculadas à UFSC registram evidências arqueológicas que remontam a milhares de anos.

É somente dentro dessa história muito mais longa que surge a povoação portuguesa que daria origem à atual Florianópolis.

De porto natural a povoação

A posição geográfica da Ilha de Santa Catarina fez dela um ponto conhecido dos navegadores europeus desde o século XVI. Embarcações que percorriam a costa em direção à região do Rio da Prata utilizavam a Ilha para obter água e mantimentos.

A ocupação colonial mais permanente, entretanto, consolidou-se no século XVII.

Por volta de 1675, Francisco Dias Velho chegou com familiares e agregados e iniciou a povoação de Nossa Senhora do Desterro, núcleo que mais tarde se transformaria em Florianópolis. Em 1726, Desterro foi elevada à categoria de vila, separando-se de Laguna.

Esse crescimento não ocorreu por acaso. A Ilha ocupava uma posição estratégica para Portugal no extremo sul de seus domínios americanos, em uma região disputada pelas coroas ibéricas.

A Ilha torna-se estratégica para Portugal

Durante o século XVIII, a Coroa portuguesa reforçou a ocupação militar da região.

Em 1738 foi criado o governo militar de Santa Catarina e, no ano seguinte, o brigadeiro José da Silva Paes assumiu como primeiro governador da recém-criada Capitania de Santa Catarina, com sede na Vila de Nossa Senhora do Desterro.

Silva Paes também esteve diretamente ligado à construção do sistema defensivo da Ilha. Entre as fortificações implantadas naquele período estão Santa Cruz de Anhatomirim, São José da Ponta Grossa, Santo Antônio de Ratones e Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba.

Mas havia uma questão essencial: fortificar não bastava. Era preciso povoar.

E é nesse ponto que a história de Santa Catarina se encontra definitivamente com a história dos Açores.

A travessia açoriana

A partir de 1748, começaram a chegar ao Sul do Brasil famílias provenientes principalmente do arquipélago dos Açores, dentro de uma política de povoamento promovida pela Coroa portuguesa.

Documentos e estudos históricos situam entre 1748 e 1756 a grande corrente migratória açoriana para Santa Catarina e o Sul do Brasil, envolvendo aproximadamente seis mil pessoas, embora os totais possam variar conforme a fonte e o recorte territorial adotado.

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina registra que a primeira leva, em 1748, reuniu 461 pessoas, seguida por outras viagens que transportaram milhares de ilhéus para a Ilha de Santa Catarina e seus arredores.

A migração atendia a interesses de ambos os lados do Atlântico. Portugal pretendia consolidar sua presença no Sul da América portuguesa; para muitas famílias açorianas, a partida também representava uma alternativa às dificuldades econômicas, demográficas e naturais enfrentadas no arquipélago.

Um novo desenho para a Ilha

Os novos moradores não ficaram concentrados apenas no núcleo de Desterro.

O povoamento avançou por diferentes pontos da Ilha e do litoral próximo. Documentação utilizada pela Prefeitura de Florianópolis registra a formação de freguesias e a expansão da ocupação para localidades como Lagoa da Conceição e Santo Antônio de Lisboa, além de outras áreas da Ilha.

Esse processo ajudou a formar uma configuração territorial que ainda pode ser percebida em antigas freguesias, igrejas, caminhos, comunidades pesqueiras e núcleos tradicionais.

O legado, entretanto, não é apenas arquitetônico.

Ao longo das gerações, diferentes práticas trazidas ou reelaboradas pelos açorianos encontraram as condições sociais e ambientais de Santa Catarina. Agricultura familiar, pesca, produção de farinha de mandioca, religiosidade, festas, artesanato e formas comunitárias de convivência passaram por adaptações e transformações.

Por isso, falar em herança açoriana não significa imaginar uma cultura congelada no século XVIII. Trata-se de uma cultura que atravessou o Atlântico e continuou se modificando em contato com outras populações, com o território e com o tempo.

Desterro torna-se Florianópolis

A antiga povoação continuou crescendo.

Em 1823, Desterro foi elevada à condição de cidade e tornou-se capital da Província de Santa Catarina. Décadas mais tarde, em 1894, seu nome foi alterado para Florianópolis.

A cidade contemporânea, portanto, reúne diferentes camadas de ocupação e transformação.

Existe a Ilha anterior à colonização portuguesa, marcada por uma presença indígena milenar. Existe a povoação de Nossa Senhora do Desterro. Existe a Ilha fortificada do século XVIII. Existe a experiência dos milhares de açorianos e madeirenses que atravessaram o Atlântico. E existe a cidade que cresceu, urbanizou-se e se tornou a capital catarinense.

Conhecer Florianópolis é também aprender a reconhecer essas camadas.

O que saber sobre a formação de Florianópolis

  • Antes da colonização europeia: a Ilha já possuía ocupação humana milenar e presença indígena.

  • Século XVI: navegadores europeus utilizavam a Ilha como ponto de abastecimento.

  • Por volta de 1675: Francisco Dias Velho e seu grupo iniciam a povoação de Nossa Senhora do Desterro.

  • 1726: Desterro torna-se vila.

  • Década de 1730: Portugal reforça militarmente a ocupação da Ilha.

  • 1739: José da Silva Paes assume o governo da Capitania de Santa Catarina.

  • 1748–1756: ocorre a grande corrente de povoamento açoriano e madeirense.

  • 1823: Desterro é elevada à categoria de cidade.

  • 1894: a cidade passa a chamar-se Florianópolis.

Perguntas frequentes

Quem fundou Florianópolis?

A formação da cidade foi um processo histórico, e não um acontecimento isolado. Na historiografia sobre a colonização portuguesa, Francisco Dias Velho é associado ao início da povoação de Nossa Senhora do Desterro, por volta de 1675. A Ilha, porém, já possuía ocupação indígena muito anterior.

Florianópolis sempre teve esse nome?

Não. O núcleo colonial foi chamado de Nossa Senhora do Desterro e, posteriormente, Desterro. O nome Florianópolis foi adotado em 1894.

Quando os açorianos chegaram a Santa Catarina?

A grande corrente migratória iniciou-se em 1748 e se estendeu pelos anos seguintes, inserida na política portuguesa de povoamento do Sul do Brasil.

Por que Portugal incentivou esse povoamento?

Entre os principais fatores estava a necessidade geopolítica de ocupar e defender o território meridional diante das disputas entre Portugal e Espanha. A instalação de população permanente complementava a estratégia militar representada pelas fortificações.

Ainda é possível perceber essa história em Florianópolis?

Sim. Antigas freguesias, igrejas, fortalezas, comunidades tradicionais, práticas culturais, festas, gastronomia e elementos do modo de viver local conservam referências de diferentes períodos da formação histórica da Ilha.

Uma Ilha feita de travessias

Florianópolis não nasceu pronta. Foi sendo construída por diferentes povos, deslocamentos e encontros.

Conhecer essa história permite olhar para a Ilha de outra maneira. O mar deixa de ser apenas paisagem: torna-se caminho. As antigas freguesias deixam de ser somente lugares: tornam-se registros do povoamento. E muitas tradições passam a revelar uma ligação histórica entre dois lados do Atlântico.

É nesse encontro entre mar, raízes, história e acolhimento que também se situa a identidade da CASA AÇORES: não como uma reprodução do passado, mas como uma forma de valorizar a memória e o modo de viver da Ilha.



Comentários


bottom of page